domingo, 6 de dezembro de 2015

Quando eu ouvia...

Uma coisa que admiro em minha mãe, além de ter buscado a audição para mim quando perdi, é o fato de, quando ela nem imaginava que isso fosse acontecer, ter usado a tecnologia da época, em meados de  1975, para gravar a minha voz e a voz do meu irmão Fabrício. Naqueles tempos, eram comuns fitas cassetes de historinhas infantis e nessas fitas havia espaço para que as mães gravassem o que quisessem. Meu irmão e eu tínhamos por volta de 4 e 2 anos, respectivamente.
Engraçado que parece que me lembro vagamente desse momento. Era perto do Natal e dos meus dois anos (faço aniversário uma semana antes do Natal), eu ficava de longe observando minha mãe e meu irmão com o gravador, estava arredia e morria de vergonha. Até que eles me chamaram, recuei um pouco e de repente fui lá, cantei tão rápido que comi palavras... e depois saí.
Minha mãe me entregou essa fita, que ficou guardada e intacta todo este tempo, depois que fiz anos de casada e tive os quatro filhos.
Achei que seria legal compartilhar aqui, pois foi um fato que ocorreu antes de eu ter perdido a audição, ou seja, eu ouvia e falava. E esta gravação comprova que eu realmente tive perda auditiva pós lingual, ou seja após aprender a falar. E não tenho vergonha de dizer, isso me deixa emocionada. Saber que um dia ouvi sem a necessidade de AASI, tanto que aprendi a cantar Atirei o pau no gato (talvez era mais afinada que hoje...). Não me lembro como me senti quando fiquei sem som. Não saberia descrever qual foi a minha reação, mas minha mãe pode descrever o lado dela. Disse que um belo dia me chamou e vendo que eu não a atendia, ficou brava achando que não queria responder ou que estava a desobedecendo. Ao passo que me chamou por trás de mim, vendo que não reagia, colocou a mão no meu ombro e me disse, quando olhei para ela: "Alessandra, você não está ouvindo a mamãe?" Não quero de fato imaginar qual foi a cena quando respondi: "Não, mamãe!"

E aí, a luta começou. Os parentes e amigos ficaram sabendo, aí corre para médico otorrino, fono, fui encaminhada aos especialistas de Campinas. Essa parte pretendo contar em outra postagem, mais para frente.

O que eu quero mostrar aqui é que a luta da minha mãe valeu muito a pena e que o exemplo dela deveria ser seguido por todas as mães, sem exceção. Parabéns a todas as mamães que passaram pelo que minha mãe passou e que, assim como ela, não desistiram de buscar a audição para seus filhos. Não é fácil, a mãe ter que colocar AASI no filho pequeno que muitas vezes se incomoda com o som ou com algo nas orelhas que pode chegar a doer no começo por falta de costume, chora, se recusa a colocar, mas a persistência e perseverança fazem parte do sucesso na busca da audição. E os frutos serão colhidos no futuro, por isso, mamães, não desistam! A audição é a recompensa desta batalha.

Deixo aqui o áudio da gravação da minha voz e do meu irmão feita pela minha mãe




Fabrício: Cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal,
            cala a boca, cachorrinho, deixa o meu benzinho entrar,
            ô criôla, la, ô criôla, la, la, la...
            não sou eu que caio lá,
            meu potinho de melado, minha cesta de cará,
            quem quiser comer mingau, fecha a porta e venha cá,
            ô criôla, la, ô criola, la, la, la, ô criôla, la, não sou eu que caio lá
(…) Neste momento minha mãe me diz para cantar e eu fico tímida. Aí meu irmão me incentiva a cantar. Voz ao fundo do tio Tércio.
Fabrício: Sanda, canta o cachorrinho, qualquer coisa... Canta o cachorrinho, Sanda... canta a pinguelinha...
(…) Depois de um silêncio, eu disparo a cantar:
Eu: Aaaatirei o pau no gato, to, mas o gato, to, (não mor)reu reu, dona Chica, ca, (admi)rou se, se, miaaau (tamanha era a vergonha que não cantei o berrô que o gato deu)




Agradecimentos ao irmão Halan Pauzer (HS Produções) pela transcrição do áudio da fita cassete inteirinha para CD.